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Tarde demais para proteger: EUA retira 23 espécies extintas da lista de proteção

Lista de extintos divulgada pelo Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos contém aves, como a maior espécie de pica-pau que existia no país, peixes, mexilhões e uma espécie de planta

Duda Menegassi ·
30 de setembro de 2021

O Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos (FWS) divulgou na quarta-feira (29) uma proposta para retirada de 23 espécies da Lei de Espécies Ameaçadas americana. O motivo, entretanto, não é a boa notícia de que as espécies estão fora de risco e sim, o contrário, que já seria tarde demais para qualquer esforço de tentar conservá-las, pois já desapareceram do território americano. A lista das extinções inclui o pica-pau-bico-de-marfim, considerada a maior espécie de pica-pau dos EUA e que foi visto pela última vez em 1944. Além dele, outras dez espécies de aves também foram consideradas extintas, junto com oito espécies de mexilhões, duas de peixes, uma de morcego e uma de planta.

A extinção do pica-pau-bico-de-marfim (Campephilus principalis) promoveu comoção por se tratar de um animal que é considerado uma das inspirações – há controvérsias – para um dos personagens de desenho animado mais antigos dos Estados Unidos e com fama mundial, o Pica Pau. Desaparecida dos registros científicos há mais de 70 anos, há poucos dados sobre a espécie, mas informações históricas apontam que a ave media entre 48 e 51 centímetros de comprimento, o que faria dele o maior pica-pau que existia nos Estados Unidos.

Entre as aves extintas, soma-se uma pequena espécie de rouxinol (Vermivora bachmanii) que não é vista desde 1988 e outras nove espécies endêmicas de ilhas americanas no Oceano Pacífico, oito no arquipélago do Havaí e uma nas Ilhas Marianas do Norte, em Guam. Também no arquipélago das Marianas foi considerado extinto o pequeno morcego frugívoro das Marianas (Pteropus tokudae) visto pela última vez em 1968. Única integrante da flora na lista dos extintos, a planta Phyllostegia glabra var. lanaiensis, do Havaí, é outro exemplo de biodiversidade exclusiva de ilhas que se perdeu, com último registro na natureza há mais de um século, em 1914.

Dependentes de rios saudáveis e de água limpa, os mexilhões de água doce são consideradas algumas das espécies mais ameaçadas dos Estados Unidos. Os oito mexilhões considerados extintos pelo serviço americano estão todos localizados na porção sudeste do país, região considerada o principal centro de biodiversidade da América para mexilhões de água doce.

O pica-pau-bico-de-marfim, visto pela última vez em 1944 e considerado extinto. Arte: Louis Agassiz Fuertes/FWS/ NCTC Image Library

Dois pequenos peixes de água doce que possuíam habitats restritos, o San Marcos gambusia (Gambusia georgei), que ocorria numa pequena área no Texas, e o bagre de Ohio (Noturus trautmani), encontrado apenas num pequeno trecho de um rio em Ohio, também integraram a lista dos extintos. O primeiro desapareceu principalmente devido à alteração do seu habitat, esgotamento das águas subterrâneas e fluxos reduzidos de nascentes, e foi visto pela última vez na natureza em 1983; e o segundo tem seu declínio populacional associado ao assoreamento e à poluição do seu habitat, tanto por descarga industrial quanto por escoamento agrícola.

“O Serviço está ativamente engajado com diversos parceiros em todo o país para prevenir futuras extinções, recuperar espécies listadas e prevenir a necessidade de proteções federais em primeiro lugar”, disse Martha Williams, Diretora Adjunta do Serviço em nota à imprensa divulgada pela FWS.

De acordo com a nota do serviço americano, “embora as proteções tenham sido fornecidas tarde demais para essas 23 espécies, a ESA [Lei de Espécies Ameaçadas] teve sucesso na prevenção da extinção de mais de 99% das espécies listadas. No total, 54 espécies foram retiradas da ESA devido à recuperação, e outras 56 espécies foram retiradas da categoria de ameaçadas de extinção. O plano de trabalho atual do Serviço inclui ações planejadas que abrangem 60 espécies para possível downlist ou exclusão devido aos esforços de recuperação bem-sucedidos. Além disso, numerosas espécies evitaram a inclusão na ESA graças aos esforços colaborativos de agências federais, estados, povos indígenas e proprietários privados, com a ESA servindo como um catalisador para os esforços de conservação que ajudam a proteger as espécies ameaçadas e seu habitat”.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação e montanhismo. Escreve para ((o))eco desde 2012. Autora do livr...

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